Às vésperas de ‘setentar’, cantor revisita trajetória, conta sua rotina e analisa panorama artístico
Por IRMA LASMAR | @irma.lasmar
Maurício Pinheiro Reis é um ilustre niteroiense que não se priva da rotina simples devido à fama. Morador do Ingá, Byafra pode ser visto frequentemente caminhando pela cidade que tanto ama e da qual nunca abriu mão. Aos 69 anos de idade, ele comemora 47 de carreira e 14 álbuns, que venderam mais de meio milhão de cópias. ‘Leão Ferido’ (1981) e ‘Sonho de Ícaro’ (1984) lhe renderam dois Discos de Ouro. Suas músicas também foram gravadas por ícones da MPB, como Roberto Carlos, Ney Matogrosso, e Chitãozinho e Xororó, entre outros. ‘Helena’, ‘Vinho Antigo’, ‘Te Amo’ e ‘Seu Nome’ são alguns de seus vários sucessos em telenovelas. Caçula dos três filhos de um jornalista e uma funcionária pública, ainda criança ganhou da avó seu primeiro instrumento, uma flauta doce, e a inscrição em um curso de música, livrando-se da gagueira. Casado com Gerusa, pai de Carol e avô da recém-nascida Aurora e de Alana, de 17 anos, o cantor abre seu coração a você, leitor, nesta entrevista exclusiva ao portal TUDO SOBRE NITERÓI.
– Como mantém a motivação para estar em atividade após quase cinco décadas de carreira?
Quando se está sempre em movimento, não se sente o tempo passar. A cada momento, eu estava focado em planejar o próximo disco ou show. Mas, para o artista, não há outro caminho. Artista não se aposenta: só para de trabalhar quando morre. Se algo me impedir um dia de cantar, estarei sendo criativo em outras atividades, como a literatura. Aliás, cantar não se resume à voz: o canto, para os poetas, é a palavra falada. Busco o palco porque é o que mais gosto. Vivo dele, é minha vida e meu ganha-pão. Ao palco devo tudo o que tenho.
– O que é a arte para você?
A arte é importante porque não tem utilidade prática. Seu valor não é material. É feita para emocionar e arrancar do ser humano aquilo que está bem no fundo ele e que a rotina sufoca. A arte cuida da nossa alma, por isso é difícil descrever ou definir. Nunca fiz outra coisa desde criança, então não conheço outra profissão, por isso digo que a arte é a minha vida. Quem quer ser artista tem que encarar a instabilidade e a insegurança, pois não é só sucesso e alegria. Por isso muitos desistem no primeiro percalço pelo caminho.
– Qual a sua visão do panorama artístico-musical da atualidade?
A ditadura das plataformas digitais legalizou o jabá. A música só aparece pagando. Antes, as gravadoras pagavam para as músicas tocarem nas rádios, o que trazia público aos shows dos artistas; hoje os artistas pagam caro às plataformas digitais, as quais por sua vez pagam muito mal os direitos autorais. Ou seja, qualquer um pode publicar música. Não existe critério nem filtro. As rádios estão acabando e em breve só restará a internet. Isso tem que ser repensado. A mudança precisa vir por atitude governamental. O Ministério da Cultura precisa criar uma plataforma com curadoria e promover shows, inclusive para os artistas se conhecerem pessoalmente, algo que a internet tirou.
– Esse filtro não poderia soar como censura?
Não, porque os curadores seriam profissionais especializados avaliando a qualidade do texto e da obra. Na época da ditadura, pessoas sem qualificação simplesmente vetaram aquilo que consideravam ameaça ao governo. Eu falo sobre a arte voltar para as mãos dos verdadeiros artistas por intermédio de um governo democrático. Ou seja, criar um canal para o artista ter liberdade para contestar quando a sua música não circula no mercado, sejam plataformas digitais, rádios ou outros meios. A I.A. também tomou o lugar dos artistas e baixou a qualidade da produção musical.
– Depois da carreira consolidada, você ainda fez faculdade de Canto, Qual aprendizado o curso lhe ofereceu que a sua experiência já não conhecesse?
Fiz licenciatura pela Unirio e bacharelado pela UFRJ. Desenvolvi muito mais a minha técnica vocal, incluindo a respiração, ao aprender músicas eruditas, pois exigem muito mais da voz, me fazendo dominar melhor o canto popular. Mas continuo no ambiente acadêmico junto ao projeto de extensão do Prof. Caê, que levou à universidade o violão e professores de música popular. O grupo Recitar está trabalhando um espetáculo sobre o repertório de Tom Jobim e Vinícius de Moraes com a orquestra de violão da UFRJ. Levar a MPB para dentro das universidades e a música erudita para as ruas é fazer a cultura sobreviver. Isso é uma luta política necessária, e não partidária.
– Como é a sua rotina hoje?
Neste atual cenário, todo artista é produtor, editor, gravador, faz todo o trabalho e isso toma todo o tempo. Estou focado na minha produção musical e no projeto da UFRJ.
– Como se dá o seu processo criativo?
No tempo em que eu tinha a obrigação de gravar um disco por ano, costumava falar de coisas do meu dia a dia, incluindo as histórias de amor que eu ouvia.
– Quais são suas inspirações para compor?
Gosto de falar de vários temas. Fiz uma música chamada ‘Caminho do Porto Argentino’, sobre a Guerra das Malvinas, que nunca tocou nas rádios porque queriam de mim as românticas. Então vai virar tema de outro livro meu. Eu curto ser romântico, mas não sou só isso. No início da minha carreira, os intelectuais com patrulha ideológica taxavam os cantores românticos de alienados. Mas é melhor cantar o amor do que o ódio, concorda?
– Você tem alguma canção predileta?
Não, amo todas de forma igual, independentemente de ter feito sucesso ou não. São como filhos: diferentes entre si.
– Há algum hit que você agora evite cantar ou cante por obrigação?
Não canso de cantar minhas músicas. Nunca coloquei nos meus discos canções de que eu não gostasse, mesmo na época em que a gravadora me impunha hits por amizade aos compositores. O artista precisa também preservar sua carreira, e não ficar só cedendo.
– Seu pai foi preso político na Revolução de 1964. Como foi esse período da sua vida?
Não recordo detalhes, pois era muito pequeno. Depois que meu pai foi solto, quando eu voltava da escola, tinha sempre um carro de polícia nos vigiando da esquina.
- Como se curou da gagueira na infância?
Eu estudava no Centro Educacional de Niterói e fui suspenso por criar o jornalzinho ‘O Clandestino’, que era uma grande brincadeira, sem cunho político, até porque eu nem sabia direito o que se passava na política nacional. Quando entrei para o coral da escola e ganhei um concurso, a diretora moderou comigo. Todos esses acontecimentos devem ter mexido com meu inconsciente, pois a gagueira passou na mesma rapidez com que surgiu.
– Qual o diferencial de integrar trilhas sonoras de telenovelas? Como se davam essas colaborações, por encomenda das emissoras?
Em geral, os produtores de novela pegavam canções já gravadas pra embalar algum casal. Só uma vez fui convidado para cantar um tema em especial, ‘Fantasia Real’, composta por Danilo Caymmi e Dudu Falcão para o personagem Tonho da Lua no remake de ‘Mulheres de Areia’. Novelas alavancam hits. Televisão é um tremendo outdoor para os shows de um artista.
– ‘Sonho de Ícaro’ foi composta inicialmente para a voz de Ney Matogrosso, que recusou gravar a música. O que esta canção representa para você?
Ele não se interessou pela melodia, pois a música ainda não tinha letra. Talvez se tivesse ele se interessasse. A música era pra ser minha. Até meu fã-clube se autodenomina Os Ícaros. E eu digo que eles têm mesmo que ser ícaros na vida deles, voando alto e de mente aberta à diversidade.
– Você participou do documentário ‘Alô, Alô, Terezinha’, sobre o Chacrinha, em cujo programa você se apresentou inúmeras vezes. Qual foi o papel do comunicador na sua trajetória?
Chacrinha foi importante para toda uma geração de artistas. Um cara despido de preconceitos, que dava oportunidade para todos. Ele gostava muito de mim e me chamava sempre.
– Em 2017, você lançou o livro ‘Voo de Ícaro’. Qual foi a sua motivação para escrever sobre um homem que sofre preconceito por possuir asas?
Esse é um tema extremamente atual e importante. Vivemos tempos de rejeição ao diferente. O sistema quer eliminar tudo o que não entende, como novas ideias que propõem uma nova ordem.
– Como avalia o mercado fonográfico atual com o acesso aos repertórios via internet?
A internet massacrou principalmente o direito autoral dos compositores. Usam nossa música de graça e lucram em cima disso sem dividir com o artista. Mas, enquanto não inventarem um modo de clonar a nós, cantores, continuamos fazendo show.
– Além de fazer o que ama, qual o outro segredo para envelhecer tão bem?
Procuro me exercitar diariamente, com pilates e caminhadas pela orla, mas pensar, escrever, compor também são exercícios para a mente e para a alma.
– Você tem algum plano ou sonho profissional ainda não realizado?
O musical ‘Ícaro’, cuja sinopse e trilha sonora já estão prontas e sendo apresentadas a produtores, além do projeto de dois novos livros baseados em músicas minhas. A literatura será meu caminho quando eu estiver fazendo menos shows. Também quero compor para o cinema em um futuro próximo. E cursar teatro para melhorar minha performance no palco.
– O que significa Niterói em sua vida?
Niterói é o grande laboratório artístico que ainda não cumpriu todas as suas potencialidades. É uma cidade estrategicamente posicionada e tem toda a condição de desempenhar o papel de usina artística brasileira. Mas precisa de política cultural voltada para isso, e compreendo que não se faz isso de uma hora para outra. Acho apenas que os artistas precisam participar mais deste processo. Não como gestor mas como consultor. Eu participaria. Só precisam ser unidos para soluções criativas para o setor cultural. Aí Niterói dará um ‘boom’!



