Como uma modalidade ainda pouco conhecida pelos brasileiros pode se tornar uma ferramenta de cidadania, liderança e desenvolvimento humano nas comunidades
Por Felipe Santos*
@questaodelideranca
Depois de um mergulho profundo, descobri um esporte centenário, com raízes históricas na cidade. Eu conhecia como taco.
Com a devida licença poética em inverter a consagrada frase de Heródoto (o Pai da História) que diz que devemos “conhecer o passado para construir o futuro”, hoje estou ativamente moldando o impacto que minhas memórias terão daqui para a frente ao ajudar a “construir o futuro do passado” do cricket em toda Niterói.
O paradoxo de um esporte que já fez parte da identidade da cidade, mas que, com o tempo, quase desapareceu. O que chamo de “paradoxo do cricket” em Niterói reside no fato de que o esporte que dá nome a um dos clubes mais tradicionais da cidade – o Rio Cricket Associação Atlética, que nasceu com o objetivo claro de manter vivas as tradições e costumes da cultura inglesa e britânica, principalmente o cricket (ou críquete) – foi o grande responsável por introduzir e popularizar o seu próprio “algoz”: o futebol. Foi justamente no gramado do Rio Cricket, em 22 de setembro de 1901, que se organizou a primeira partida oficial de futebol do estado do Rio de Janeiro. Para potencializar esse paradoxo, Charles Miller, mundialmente famoso como o “pai do futebol no Brasil”, era um exímio jogador de críquete.
O esporte é o maior arcabouço de desenvolvimento humano e transformação social. O críquete deixou de ser um esporte de elite do século XIX para se transformar em uma ferramenta de inclusão. Está voltando, mas com uma roupagem completamente nova. Se no passado era restrito aos imigrantes britânicos e à alta sociedade, hoje iniciativas ligadas à Cricket Brasil (CBC) e projetos sociais como o do Parque Esportivo e Social do Caramujo (PESC) utilizam a modalidade para ensinar cidadania, trabalho em equipe, disciplina e novas perspectivas de vida para crianças e jovens em áreas vulneráveis.
Com o advento oficial do retorno da modalidade aos Jogos Olímpicos em Los Angeles 2028, após uma ausência histórica de 128 anos, esse esporte ganha evidência e deixa de ser restrito a pequenos núcleos, avançando para novas regiões do país e gerando interesse pedagógico e comunitário. A formação de atletas brasileiros (niteroienses) ganha inspiração para buscar espaço em uma modalidade com enorme apogeu internacional.
É justamente por acreditar no poder transformador do esporte que atualmente assumi, com enorme responsabilidade, a missão de representar a Confederação Brasileira de Cricket em projetos sociais no Rio de Janeiro, especialmente em Niterói. Mais do que ensinar uma modalidade, o propósito é criar oportunidades, desenvolver valores, formar lideranças e ampliar horizontes para crianças e jovens. Está sendo construído no PESC (complexo público de esporte, lazer e inclusão social) um polo de treinamento de cricket que pretende colocar Niterói no mapa da modalidade. Mais do que ensinar um esporte, estão se formando equipes e desenvolvendo talentos. O objetivo é claro: formar o primeiro time de cricket para representar oficialmente a cidade de Niterói em um projeto pioneiro no estado do Rio de Janeiro. O próximo desafio é ainda maior: contribuir para que Niterói se torne uma referência nacional do críquete, seguindo o exemplo de Poços de Caldas, município que hoje é um dos grandes polos da modalidade no país.
Niterói é amplamente reconhecida como um verdadeiro celeiro e berço de grandes atletas no Brasil. Impulsionada por fatores econômicos e humanos, com uma forte cultura de clubes sociais e incentivo escolar, a “Cidade Sorriso” se transformou em uma potência esportiva histórica.
Toda grande transformação começa quando alguém acredita que ela é possível. E nós já começamos. O futuro do críquete brasileiro também será construído aqui.
*Felipe Santos é professor e escritor, com mestrado em Ciências da Atividade Física na área de concentração sociocultural e especialização em Psicologia Esportiva, Gestão de Pessoas e Recursos Humanos. Diretor executivo da Questão de Liderança Treinamentos. Autor dos livros: O Esporte é Uma Prática de Liderança: o atleta é um líder em exercício (Ed. UiClap, 2025) e Conduta Físico Postural e Comportamental: uma questão de liderança na gestão por competência no esporte (Ed. Dialética, 2023).
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