POR ADELINO FERNANDES
Psicólogo Clínico – CRP 05/49136 | Instagram: @oavessododito | (21) 96601-7117
Talvez ninguém saiba o que está acontecendo dentro da minha cabeça.
Eu continuo trabalhando, continuo sorrindo, continuo respondendo mensagens, cuidando dos meus filhos, conversando com as pessoas. Continuo namorando, amando, vivendo meus afetos, cumprindo minha rotina. Por fora, talvez a vida continue exatamente como sempre.
Mas existe um lugar dentro de mim onde a dor parece ter ocupado todos os espaços. Nada nem ninguém consegue entrar.
E talvez, ultimamente, uma pergunta tenha começado a aparecer:
“E se eu simplesmente não estivesse mais aqui?”
Se essa pergunta já passou pela sua cabeça, não tenha vergonha de dizê-la.
Pensar em suicídio não faz de você fraco, egoísta ou alguém que deixou de valorizar a vida ou as pessoas. Pode ser o sinal de que uma dor chegou a um tamanho que você já não consegue carregar sozinho.
Em momentos assim, o sofrimento pode estreitar o mundo. Problemas temporários parecem definitivos. Portas que existem deixam de ser percebidas. E uma única saída pode parecer a única possível.
Às vezes, nesse lugar de sofrimento, outras coisas também vão desaparecendo. A alegria fica distante. A paz se embota — não aquela paz de quem acredita que está tudo bem, mas aquela que nos permite atravessar as dificuldades acreditando que elas podem passar.
E, talvez, o mais difícil seja quando a esperança começa a desaparecer.
Porque a esperança não significa acreditar que tudo dará certo. Às vezes, ela é apenas a possibilidade de imaginar que aquilo que estamos vivendo não será para sempre.
Quando essa possibilidade desaparece, continuar pode se tornar muito mais difícil.
Mas não conseguir enxergar uma saída não significa que ela não exista.
Por isso, fale com alguém de confiança. Com um psicólogo. Com um psiquiatra. Com um serviço de saúde.
Não espere encontrar as palavras perfeitas. Diga simplesmente:
“Eu não estou bem e estou pensando em me machucar.”
Se alguém lhe disser isso, não transforme a conversa em julgamento ou comparação.
Escute. Fique de perto. Leve a sério. Ajude essa pessoa a chegar até quem pode cuidar dela.
Não desgrude dela.
E, se for você quem está lendo estas palavras, não precisa resolver hoje toda a sua vida.
Não precisamos cuidar do filme da sua vida. Precisamos cuidar da foto que está sendo mostrada para você neste momento.
A dor que sentimos é real. Mas o futuro que nossa dor está anunciando não é necessariamente o nosso futuro.
Talvez ainda não consigamos enxergar outro caminho.
Então, não caminhemos sozinhos.
Se houver risco de você se machucar, procure ajuda imediatamente: CVV 188 ou, em uma emergência, SAMU 192 e um serviço de saúde.
Que haja um pouco de sombra para nós nestes dias de deserto.
Fique bem.


